Unidade da Unigel em Cubatão.
Apesar da luta do Sindicato, fábrica com cerca de 50 anos paralisa definitivamente as operações
VALENTIM CARDOZO
Da Redação
A Unigel (Antiga Companhia Brasileira de Estireno) encerrou na última quarta-feira (07) as suas atividades na unidade de Cubatão. Foram cerca de 50 anos de atividade na cidade, com uma localização estratégica, na própria Avenida 9 de Abril, nas proximidades da Vila Elizabeth, se misturando com o perímetro urbano do município, caracterizando por décadas a fama de cidade industrial. Com a paralização de suas atividades cerca de 200 trabalhadores (100 diretos e outros 100 de forma indireta) devem perder seus postos de trabalho.
Em um vídeo gravado para uma grande emissora de TV da região, o presidente do Sindicato dos Químicos da Baixada Santista, Herbert Passos Filho, lamentou o ocorrido. “Muita coisa foi debatida nos quesitos administrativos e judiciais para que a Unigel permanecesse em com suas atividades”, disse Passos.
Ele ainda disse que isso pode acabar por acontecer com demais industrias do Polo de Cubatão. “O produto externo entra no país com um baixo índice de impostos, diferente do brasileiro, sendo assim fica mais atraente para o mercado interno, consumir os insumos que vem do exterior”. Conclui o líder sindical.
Passos finaliza reiterando a falta de apoio para a categoria em relação a classe política, que segundo ele, não tem dado a merecida relevância em ambas as esferas, principalmente na região, onde nenhuma liderança a nível estadual, federal e nem mesmo regional, onde está situado o Polo Industrial de Cubatão, tem se posicionado a favor das causas de classe. “Um dia triste. Hoje infelizmente a notícia que demos para dar, é essa daí”, lamenta o presidente do SINDQUIM.
UNIGEL SE MANIFESTA
Por meio de uma nota, a Unigel confirmou o encerramento das atividades na unidade de Cubatão. “Essa decisão de corre de um contexto desafiador para toda a indústria química global, que atravessa um ciclo de baixa sem precedentes, marcado por forte sobre oferta de commodities”.
Em um outro trecho, a empresa garante a realização das atividades de paralização: “Nos próximos dias serão realizadas atividades inerentes a interrupção segura das operações, seguindo rigorosamente os padrões técnicos de segurança e ambientais, bem como conduzidas as tratativas com o sindicato de forma responsável, transparente e em conformidade com a legislação vigente”.
PREFEITO SE REÚNE COM UNIGEL
O prefeito César Nascimento se reuniu com representantes da Unigel na tarde desta quarta-feira (7) e reiterou a disposição do município em conceder isenções fiscais à empresa na tentativa de evitar a paralisação da produção de insumos na planta de Cubatão.
A situação da Unigel já vinha sendo monitorada pela Administração Municipal e Poder Legislativo há cerca de um ano, antes mesmo de a empresa entrar em recuperação judicial em outubro do ano passado e assumir publicamente uma dívida superior a R$ 5 bilhões.
O município de Cubatão tem atuado de forma proativa junto às empresas instaladas no Polo Industrial, promovendo diálogo contínuo com CIESP-Cubatão, CIDE-Cubatão e demais entidades representativas do setor, visando antecipar riscos e articular soluções conjuntas. Tanto que apresentou uma proposta na última reunião do Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista (Condesb) pela articulação de todos os prefeitos da Baixada Santista em uma frente com objetivo de solicitar medidas de estímulo e incentivo à indústria, junto aos órgãos estaduais e federais.
Na Câmara, uma Comissão Especial de Vereadores (CEV) acompanhou o tema, e uma legislação específica está sendo elaborada para oferecer incentivos fiscais a empresas da cidade em recuperação judicial. “Tentamos ajudar de todas as formas e colocamos os incentivos municipais à mesa. No entanto, a direção da empresa explicou que esta é uma questão maior, de mercado e competitividade contra produtos importados, em que tributos municipais, infelizmente, não são suficientes para reverter o cenário”, explica o prefeito.
Diante disso, o chefe do Executivo iniciou tratativas imediatas para mobilizar uma comissão de políticos da região para ir a Brasília. O objetivo é conseguir, junto ao Governo Federal, medidas de proteção para a indústria nacional contra produtos importados que chegam ao mercado brasileiro abaixo do preço de custo local.
Manutenção da planta e empregos – Na reunião desta quarta, a Unigel foi representada pelo gerente Executivo Industrial, Fabiano Arce, e pelo gerente de Saúde, Segurança e Meio Ambiente, Paulo Fonseca. Questionados pelo prefeito sobre possíveis demissões, os executivos afirmaram que ainda não há definição, pois uma série de procedimentos ainda devem ser realizados até a paralisação total da produção e hibernação da fábrica. Atualmente, a unidade conta com 70 trabalhadores diretos e 30 indiretos.
Os gerentes garantiram que a desmobilização da planta será acompanhada pela Cetesb e técnicos para assegurar que não haja qualquer dano ambiental. “Sabemos que a empresa trabalha com produtos químicos que exigem manejo rigoroso. Por isso, nossa fiscalização ambiental será constante”, reforça o prefeito César.
Cenário Nacional – A interrupção das operações em Cubatão reflete desafios estruturais que afetam a indústria química nacional — principalmente a concorrência desleal com importados, que cresceram mais de 10% em 2024 segundo a Abiquim. Este cenário de custos elevados no Brasil e preços predatórios internacionais pressiona a capacidade produtiva local.
Para a Administração Municipal, o episódio reforça a urgência de uma política industrial federal robusta. A competitividade do setor químico — vital para o PIB e para os empregos em Cubatão — depende de medidas que combatam práticas predatórias e incentivem a produção nacional.
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